Baixa adesão às vacinas contra gripe e covid preocupa durante a gestação

- in Saúde

29/09/2026

A resistência à vacinação durante a gravidez ainda preocupa especialistas e autoridades de saúde no Brasil. Embora os imunizantes recomendados para gestantes sejam considerados seguros e eficazes, a cobertura contra influenza e covid-19 permanece abaixo da meta estabelecida pelo Ministério da Saúde.

Dados oficiais mostram que, em 2025, cerca de 63% das gestantes receberam a vacina contra a gripe e apenas 55% foram imunizadas contra a covid-19. A meta nacional para os dois imunizantes é alcançar 90% do público-alvo.

Os números preliminares de 2026 indicam melhora na vacinação contra a influenza, que chegou a 76%. No caso da covid-19, porém, a cobertura continua em aproximadamente 55%.

Infecções podem evoluir para casos graves

A baixa cobertura preocupa porque a gravidez aumenta a vulnerabilidade da mulher a algumas infecções respiratórias. Levantamento do Ministério da Saúde solicitado pela Agência Brasil aponta que, entre 2022 e o início de agosto de 2026, pelo menos 286 gestantes ou puérperas desenvolveram síndrome respiratória aguda grave (SRAG) após infecção por influenza. Desse total, 25 morreram, sendo sete somente em 2026.

No mesmo período, a covid-19 esteve relacionada a pelo menos 205 casos graves e 21 mortes entre gestantes e puérperas.

O impacto foi ainda maior nos primeiros anos da pandemia. Entre 2020 e 2022, foram registrados 3.547 casos de SRAG provocados comprovadamente pelo coronavírus em gestantes ou puérperas. Ao todo, 811 mulheres morreram.

Para a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Flávia Bravo, parte da resistência está relacionada à percepção equivocada de que a gripe seria uma doença pouco relevante e à circulação de informações falsas sobre as vacinas contra a covid-19.

Segundo a especialista, a vacinação contribuiu de forma significativa para reduzir os casos graves entre gestantes. Estudos realizados por pesquisadores brasileiros apontaram que, após o início da vacinação desse público, a média mensal de casos de SRAG caiu para cerca de um terço, enquanto a mortalidade ficou quase cinco vezes menor.

Mesmo com essa redução, influenza e covid-19 continuam representando uma parcela importante dos casos graves entre gestantes e puérperas. Em 2026, as duas doenças juntas correspondem a quase 30% dos casos de SRAG nesse grupo e a mais da metade das mortes registradas.

Vacinação faz parte do pré-natal

Além das vacinas contra gripe e covid-19, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece outros imunizantes indicados durante a gestação, como hepatite B, dT, dTpa e a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR).

A vacina contra febre amarela também pode ser recomendada em situações específicas, como para gestantes que vivem em regiões com circulação comprovada do vírus ou que precisam viajar para áreas de risco.

A ginecologista Giuliane Lajos, integrante da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), defende que a vacinação seja tratada como parte fundamental do acompanhamento pré-natal.

Durante a gravidez, o sistema imunológico sofre alterações para permitir o desenvolvimento do bebê. Além disso, conforme a gestação avança, mudanças no organismo podem dificultar a resposta da mulher a determinadas infecções respiratórias.

Por isso, uma infecção que poderia ser controlada com mais facilidade fora da gravidez pode apresentar maior risco durante esse período.

A especialista ressalta ainda que complicações graves podem afetar não apenas a mãe. Internações e infecções severas podem aumentar o risco de problemas na placenta e de parto prematuro.

Uma análise internacional envolvendo mais de 1,2 milhão de gestantes encontrou menor risco de parto prematuro, morte fetal e algumas complicações entre mulheres vacinadas contra a covid-19.

Anticorpos da mãe também protegem o bebê

A imunização durante a gravidez oferece benefícios que vão além da proteção da própria mulher. Os anticorpos produzidos após a vacinação podem atravessar a placenta e ajudar a proteger o bebê nos primeiros meses de vida.

Isso é especialmente importante porque a vacinação contra influenza e covid-19 da criança começa apenas aos seis meses de idade.

Segundo Flávia Bravo, estudos clínicos indicam que a vacinação materna contra a gripe pode reduzir em cerca de 70% a ocorrência da doença nos primeiros meses de vida do bebê. No caso da covid-19, pesquisas também identificaram elevada concentração de anticorpos no sangue do cordão umbilical.

A necessidade dessa proteção fica evidente diante dos registros de casos graves entre crianças pequenas. Até 19 de setembro de 2026, quase 4 mil crianças menores de dois anos haviam desenvolvido SRAG causada por influenza no Brasil, com 55 mortes.

No mesmo grupo etário, foram registrados 808 casos graves de covid-19 e 18 mortes em 2026. Desde 2023, pelo menos 9.725 crianças menores de dois anos tiveram casos graves da doença, com 223 mortes.

Vacinação contra VSR apresenta resultados

A experiência recente com a imunização contra o vírus sincicial respiratório também mostra os efeitos da ampliação da cobertura vacinal.

Iniciada em 2025, a vacinação contra o VSR já alcançou aproximadamente 1,7 milhão de gestantes, o equivalente a cerca de 86% do público-alvo. A estratégia é complementada pelo uso de anticorpo monoclonal em bebês prematuros ou com determinadas condições de saúde.

No primeiro semestre de 2026, foram contabilizados 6.674 casos graves de VSR em bebês de até seis meses. No mesmo período de 2025, haviam sido registrados 14.061 casos.

Proteção contra coqueluche também depende da mãe

A vacinação durante a gravidez também é importante para prevenir a coqueluche nos primeiros meses de vida.

A vacina dTpa passou a ser oferecida às gestantes pelo SUS em 2014, depois de surtos da doença entre recém-nascidos. O imunizante protege contra a bactéria Bordetella pertussis, responsável pela coqueluche.

Embora os bebês tenham vacinação própria contra a doença, a primeira dose é aplicada somente aos dois meses de idade e o esquema inicial é concluído aos seis meses. Até lá, a proteção recebida da mãe durante a gestação desempenha papel importante.

A cobertura da dTpa entre gestantes passou de 34% em 2016 para 94% em 2025. Em 2026, os dados preliminares apontam cobertura de 88%.

Os casos de coqueluche também vêm caindo. O Brasil registrou 7.747 infecções confirmadas em 2024, número que caiu para 2.744 em 2025 e chegou a 401 até 10 de setembro de 2026.

Apesar da redução, os bebês continuam sendo o grupo mais vulnerável. Cerca de 20% dos casos registrados no período ocorreram em crianças menores de um ano. Entre as mortes, porém, essa faixa etária representa mais de 90%. Dos 11 óbitos registrados em 2026, nove foram de bebês com menos de um ano e oito tinham menos de seis meses.

Profissionais de saúde têm papel importante

Especialistas reforçam que os imunizantes recomendados durante a gravidez passaram por avaliações de segurança e não há evidências de que as vacinas indicadas causem malformações fetais.

Para Giuliane Lajos, profissionais de saúde precisam participar ativamente do combate à desinformação e orientar as gestantes com base em evidências científicas.

Na rede pública, uma das estratégias é conferir a carteira de vacinação já na primeira consulta do pré-natal. Quando alguma dose está pendente, a gestante pode ser encaminhada diretamente para a vacinação.

Agentes comunitários de saúde também ajudam a acompanhar as mulheres durante a gravidez e lembram da necessidade de manter o calendário atualizado.

O acompanhamento próximo pode evitar que uma dose seja esquecida. Reuniões de gestantes, encontros com familiares e outras atividades realizadas nas unidades de saúde também são utilizadas para esclarecer dúvidas e incentivar a vacinação.

Para as especialistas, manter a imunização em dia durante a gravidez é uma medida de proteção para duas pessoas: a mãe e o bebê. Além de diminuir o risco de complicações durante a gestação, os anticorpos transferidos pela mãe ajudam a proteger a criança justamente durante os primeiros meses, quando ela ainda não recebeu todas as próprias vacinas.