
Por Agecom Brasil Publicado em 30 de maio de 2026
O cenário das brincadeiras infantis mudou drasticamente. O que antes era dominado pelo “pique-esconde” e jogos de rua, hoje dá lugar a uma presença constante de dispositivos digitais. Especialistas alertam que essa transição, quando não mediada, pode comprometer o desenvolvimento da capacidade criativa e a saúde das crianças.
O “ciclo vicioso” do tédio digital
A terapeuta ocupacional Amanda Sposito, orientadora do estudo “Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil”, aponta que o uso excessivo de telas cria uma dependência de estímulos externos.
“Quanto mais a criança fica imersa na tela, menos ela exercita a criatividade na vida real. Quando o aparelho é retirado, ela não sabe como ocupar o ócio, sentindo-se entediada e recorrendo novamente ao dispositivo. É um ciclo que anula a iniciativa própria”, explica Sposito.
Fatores como a insegurança urbana e a rotina exaustiva dos pais contribuem para que o celular se torne uma “babá eletrônica” constante, substituindo brincadeiras que exigiriam esforço cognitivo e físico.
Recomendações e saúde
Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto a Sociedade Brasileira de Pediatria reforçam que o uso de telas deve ser rigorosamente limitado conforme a faixa etária. O objetivo é evitar prejuízos que vão desde problemas de visão e postura até dificuldades no desenvolvimento cognitivo e emocional, além dos riscos de cyberbullying.
A orientação é clara: telas não devem substituir atividades essenciais, como sono e alimentação, e o monitoramento do conteúdo é indispensável para evitar exposição a materiais impróprios.
Tecnologia com propósito: o caminho do equilíbrio
Em vez do banimento total, especialistas sugerem o letramento digital. Projetos como o Gaming Park, presente no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, exemplificam como a tecnologia pode ser uma ferramenta educativa e de socialização.
A coordenadora técnica do projeto, Dara Coema, destaca que o videogame, quando contextualizado, pode ensinar sobre trabalho em equipe e comunicação. No entanto, ela enfatiza a necessidade de uma “educação midiática”:
- Conscientização: Ensinar crianças desde cedo a entender algoritmos e riscos de dados.
- Consumo crítico: Discutir o que está sendo consumido, combatendo passivamente a aceitação de conteúdos.
- Responsabilidade compartilhada: Famílias devem aplicar controle parental, mas as grandes plataformas também precisam ser fiscalizadas para não promoverem o uso viciante.
Conclusão
O desafio atual não é demonizar a tecnologia, mas garantir que ela atue como um complemento — e não como o único pilar — da infância. O estímulo à criatividade exige espaços de ócio real e o incentivo ao brincar espontâneo, garantindo que o mundo digital seja um território explorado com consciência, e não um refúgio da falta de repertório.

