O avanço do sarampo nos Estados Unidos acende um alerta para o Brasil e outros países das Américas. Discursos contrários à vacinação e mudanças nas recomendações de imunização são apontados por especialistas como fatores que contribuem para o agravamento da doença. Em 2026, os Estados Unidos já registraram mais de 4,4 mil casos e três mortes, segundo os dados divulgados na reportagem.
De acordo com Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, o cenário americano representa um risco para todo o continente. Ele critica o apoio de autoridades dos Estados Unidos a discursos antivacina e ressalta que a imunização é essencial para impedir a circulação do vírus.
Entre os casos registrados no país norte-americano, 98% das pessoas infectadas não estavam com a vacinação completa.
Brasil enfrenta risco de novos casos importados
O aumento das infecções em outros países também preocupa as autoridades brasileiras. O Brasil contabilizou 61 casos de sarampo em 2026, a maioria relacionada à importação do vírus. Apesar disso, o país mantém o certificado de área livre de transmissão endêmica, já que não há circulação sustentada da doença em território nacional desde 2024.
O histórico recente mostra a importância da vigilância. O Brasil perdeu a certificação em 2019, após a reintrodução do vírus na Região Norte, seguida pela disseminação para outras áreas do país. Na ocasião, São Paulo registrou um surto com aproximadamente 19 mil casos.
A recuperação dos índices de vacinação foi determinante para a retomada do reconhecimento internacional. Em 2024, a cobertura da primeira dose da vacina tríplice viral chegou a 96%, enquanto a segunda atingiu 78%. Os números preliminares de 2026 apontam cobertura de 95% na primeira dose e 80% na segunda.
A tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Especialistas reforçam que a cobertura vacinal precisa permanecer em pelo menos 95% para reduzir a transmissão e proteger pessoas que não podem receber a vacina.
Mudanças nos EUA geram preocupação entre especialistas
Em agosto, o governo de Donald Trump reduziu de 17 para 11 o número de imunizantes recomendados universalmente para crianças. Também determinou que a vacina tríplice viral fosse substituída por aplicações separadas contra sarampo, caxumba e rubéola.
Para Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), as mudanças não têm respaldo científico e podem confundir a população. Ele destaca que a confiança nas vacinas é fundamental para garantir a adesão às campanhas de imunização.
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), os casos de sarampo nas Américas já ultrapassaram 56 mil, com pelo menos 80 mortes.
A doença é altamente contagiosa e pode provocar complicações graves, especialmente em crianças pequenas e pessoas vulneráveis. A vacinação em massa ajuda a interromper a transmissão e a proteger indivíduos que não podem ser imunizados por razões médicas.
Vigilância e vacinação são essenciais para conter a doença
Diante de casos suspeitos, as autoridades sanitárias precisam agir rapidamente para confirmar o diagnóstico, isolar os pacientes, rastrear contatos e ampliar a vacinação nas áreas afetadas.
Em São Paulo, quase 4 milhões de doses adicionais foram aplicadas neste ano. No Amazonas, onde foram registrados 17 casos em setembro e outubro, o número de doses aplicadas chegou a aproximadamente 192 mil, conforme os dados apresentados na reportagem.
Além do risco de surtos, especialistas alertam para os efeitos da desinformação disseminada nas redes sociais. Uma das alegações associadas às mudanças nos Estados Unidos é a suposta relação entre vacinas e autismo, hipótese que não é sustentada pelas evidências científicas.
Outra preocupação envolve a vacina contra a hepatite B, aplicada ao nascimento. Segundo Juarez Cunha, já há relatos de pais que recusam a imunização em maternidades particulares brasileiras, influenciados pelo debate internacional.
A infecção pelo vírus da hepatite B apresenta maior risco de se tornar crônica quando ocorre na infância, podendo evoluir para cirrose e câncer de fígado.
Especialistas ressaltam que a manutenção de altas coberturas vacinais, aliada à vigilância epidemiológica e ao combate à desinformação, é fundamental para evitar que casos importados provoquem novos surtos no Brasil.
Da Redação
21/10/2026
