21/09/2026
A segunda edição da Febre de Arte, realizada em Fortaleza, reuniu especialistas e representantes de movimentos sociais para discutir políticas sobre drogas, uso medicinal da cannabis e os impactos sociais da atual política de repressão.
Durante os debates, participantes defenderam a formulação de políticas públicas que considerem aspectos de saúde, justiça social e segurança. Os palestrantes também incentivaram o público a escolher, nas eleições deste ano, candidatos que apresentem propostas claras sobre o tema.
Cannabis medicinal entra no debate
A médica de família e comunidade Magda Almeida, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), destacou a necessidade de ampliar o debate sobre o uso medicinal da cannabis e evitar abordagens simplificadas sobre a substância.
Segundo dados apresentados durante o evento, mulheres mais velhas e empregadas estão entre as principais consumidoras de cannabis medicinal importada no Brasil, geralmente em busca de alternativas para problemas como dor crônica e distúrbios do sono.
Magda também ressaltou que a cannabis não deve ser tratada como solução para todos os problemas de saúde. Para ela, tratamentos precisam considerar as características e respostas individuais de cada paciente.
Repressão e encarceramento
Outro eixo dos debates foi a relação entre a política de drogas, o encarceramento e a atuação das forças de segurança. Participantes apontaram impactos que, segundo eles, atingem de maneira desproporcional populações negras e de baixa renda.
O advogado Italo Coelho, especialista em direito criminal, relacionou a atual discussão sobre cannabis a episódios históricos de repressão a manifestações culturais e conhecimentos tradicionais.
Já Tamára Silva, da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), criticou a concentração das políticas públicas na repressão e defendeu alternativas que envolvam prevenção, saúde e outras estratégias de enfrentamento ao problema das drogas.
A advogada Bianca Cardial também chamou atenção para os custos sociais e financeiros associados ao encarceramento, incluindo despesas que acabam sendo assumidas pelas famílias de pessoas presas.
Custos da política de drogas
Durante a programação, foram apresentados dados sobre os gastos relacionados à aplicação da legislação sobre drogas. Pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) apontou que seis estados e o Distrito Federal gastaram R$ 7,7 bilhões em 2023 na implementação da Lei de Drogas.
Também foi citado levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), segundo o qual os homicídios relacionados à proibição das drogas representam um custo estimado em aproximadamente R$ 50 bilhões por ano, equivalente a 0,77% do Produto Interno Bruto (PIB).
A Febre de Arte foi organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica. A programação contou ainda com a participação da Auê Feira e de organizações voltadas ao atendimento de pacientes que utilizam cannabis para fins medicinais.
