Yangtzé reúne especialistas para discutir cooperação entre povos ligados aos grandes rios

- in MUNDO

19/09/2026

Especialistas de quase 20 países se reuniram nesta semana, em Chongqing, na China, para discutir a relação entre os grandes rios do mundo, suas populações e os desafios ambientais. O encontro teve como referência o rio Yangtzé, principal eixo fluvial da economia chinesa.

A 4ª edição do Fórum da Civilização do Rio Yangtzé reuniu pesquisadores, jornalistas e artistas de países ligados a importantes bacias hidrográficas, entre eles Brasil, Egito, Sérvia, Austrália, Reino Unido, México, Turquia e Coreia do Sul.

Com o tema “Conectando Rios e Mares, compartilhando a sabedoria das civilizações”, o evento discutiu experiências históricas, preservação ambiental e possibilidades de cooperação entre países que dependem de grandes rios.

Yangtzé como eixo histórico e econômico

Com aproximadamente 6,3 mil quilômetros, o Yangtzé atravessa o território chinês e conecta regiões do interior ao litoral, chegando ao porto de Xangai. O rio é considerado, ao lado do Rio Amarelo, um dos principais berços da civilização chinesa.

Durante o fórum, participantes também destacaram descobertas arqueológicas relacionadas ao desenvolvimento das comunidades que viveram às margens do Yangtzé. Pesquisas apontam que o cultivo de arroz na região remonta a quase 10 mil anos.

O historiador chinês Li Guoqiang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, afirmou que a história das civilizações formadas em torno dos grandes rios foi tradicionalmente analisada a partir de referências centradas na Mesopotâmia e no Nilo.

A programação incluiu um percurso de aproximadamente 440 quilômetros pelo Yangtzé, com visitas a locais históricos, como a antiga fortaleza de Shibaozhai e o templo de Zhang Fei.

Preservação ambiental

O crescimento econômico acelerado da China nas últimas décadas também provocou impactos ambientais no Yangtzé. Um dos casos mais conhecidos foi o desaparecimento do baiji, ou golfinho do Yangtzé, espécie declarada funcionalmente extinta em 2006.

Durante o encontro, pesquisadores chineses destacaram mudanças nas políticas de proteção do rio. Entre as medidas mencionadas estão a restrição da pesca profissional e ações de recuperação ambiental.

Segundo Li Guoqiang, o país passou a dar maior atenção à preservação ecológica depois dos impactos provocados pelo processo de industrialização.

A pesquisadora brasileira Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), também apontou os efeitos da industrialização, da urbanização e da navegação sobre a biodiversidade do Yangtzé. Para ela, a experiência chinesa pode servir de referência para o debate sobre conservação na Amazônia.

Experiências entre Yangtzé e Amazonas

A aproximação entre China e Brasil também esteve presente no fórum. Uma equipe de mídia chinesa produziu no Brasil um documentário sobre comunidades ribeirinhas amazônicas. A produção, intitulada “Quando o Yangtzé encontra o Amazonas”, pretende apresentar semelhanças e diferenças entre as populações que vivem às margens dos dois rios.

A diretora Vivian Yan relatou ter encontrado na Amazônia comunidades cuja rotina está diretamente ligada ao rio e ao ambiente natural.

Para Vera Maria, o desenvolvimento econômico da Amazônia precisa considerar as características próprias da região e o conhecimento das populações tradicionais e indígenas.

A pesquisadora defendeu atividades capazes de gerar renda sem depender da destruição da floresta, citando produtos como açaí e castanha-do-Brasil. Também demonstrou preocupação com intervenções nos rios que possam afetar os ecossistemas aquáticos.

Desenvolvimento e conservação na Amazônia

O pesquisador André Pereira Reinnert Tokarski, do Centro Universitário Alves Faria (Unialfa), defendeu a busca por alternativas que conciliem atividade econômica e conservação ambiental.

Segundo ele, tanto a exploração predatória quanto a ausência de alternativas econômicas para as populações locais podem produzir impactos sociais e ambientais. O pesquisador citou ainda a dependência de combustíveis fósseis para geração de energia em comunidades amazônicas, apesar da abundância de recursos hídricos na região.

O Fórum da Civilização do Rio Yangtzé faz parte de uma iniciativa chinesa voltada à aproximação entre diferentes civilizações e ao intercâmbio de experiências relacionadas aos grandes rios, reunindo questões históricas, culturais, econômicas e ambientais.