17/09/2026
Uma pesquisa realizada pela Rede Katahirine aponta as dificuldades enfrentadas por cineastas indígenas para conseguir recursos destinados à produção de filmes. O levantamento ouviu 60 profissionais de 40 povos indígenas e identificou obstáculos principalmente no acesso a editais de financiamento.
Apesar das dificuldades, a produção audiovisual indígena tem conquistado espaço em cinemas, festivais, mostras e plataformas de streaming, além de receber reconhecimento e premiações.
Segundo a pesquisa, 81,7% das cineastas entrevistadas já tiveram filmes exibidos em mostras ou festivais. No entanto, 71,7% afirmaram que já desistiram de participar de algum edital de financiamento.
A burocracia aparece como principal motivo, citada por 70% das entrevistadas. Também foram apontados como obstáculos o não cumprimento de requisitos exigidos pelos editais, mencionado por 43%, e o uso de linguagem técnica nos processos de inscrição, apontado por 41%.
Regras dificultam participação
De acordo com Mari Corrêa, idealizadora da Rede Katahirine, alguns programas de financiamento exigem que os responsáveis pelos projetos tenham empresas ou produtoras formalizadas, o que pode dificultar a participação de cineastas que vivem em territórios indígenas.
A cineasta e artista visual Larissa Tukano também relata dificuldades para compreender a linguagem utilizada nos editais e afirma que algumas exigências relacionadas à experiência profissional são difíceis de comprovar.
Além das questões burocráticas, as cineastas defendem que o audiovisual indígena possui formas próprias de produção e de relação com as comunidades retratadas.
Larissa Tukano destaca que filmar dentro da própria comunidade permite uma relação mais próxima com as pessoas e envolve conhecimentos sobre o que pode ou não ser registrado. O uso das línguas indígenas também pode facilitar a comunicação durante as produções.
Mari Corrêa explica que os processos de criação podem seguir uma dinâmica diferente dos modelos tradicionais do cinema ocidental. Segundo ela, decisões coletivas e estruturas menos hierarquizadas têm papel importante nas produções realizadas dentro das comunidades.
Livros discutem cinema indígena
Os resultados da pesquisa fazem parte do livro “Ler o vento, filmar o mundo: pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil”, produzido pela Rede Katahirine – Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas.
A publicação será lançada nesta quinta-feira (17), às 14h, no Cine Brasília. A entrada é gratuita.
Na mesma ocasião, também será apresentado o livro “Diretrizes para um audiovisual ético com povos indígenas”, voltado à discussão sobre práticas de produção audiovisual envolvendo comunidades indígenas.
