10/09/2026
Moradores de comunidades do Rio de Janeiro apontam educação, emprego, mobilidade, saúde, cultura e lazer como temas importantes para definir o voto nas eleições deste ano. Embora a segurança pública continue sendo uma preocupação, muitos entrevistados defendem que o enfrentamento da violência também passa pela melhoria das condições de vida nas periferias.
No estado do Rio, cerca de 2,1 milhões de pessoas vivem em favelas, segundo dados do Censo 2022. Na capital, são aproximadamente 1,3 milhão de moradores distribuídos por centenas de comunidades, que convivem com dificuldades relacionadas ao acesso a serviços públicos, transporte, educação e infraestrutura.
Para jovens que participarão das eleições, a escolha dos candidatos está ligada principalmente à capacidade de apresentar propostas concretas para os territórios e ouvir as demandas dos moradores.
Moradora do Complexo do Alemão, na zona norte, Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, votará pela primeira vez. Ela considera importantes candidatos comprometidos com direitos humanos e pautas sociais, mas também cobra maior diálogo com as comunidades.
A mobilidade urbana é uma das principais preocupações. Segundo ela, a falta de linhas de ônibus que liguem diretamente as favelas a outras regiões da cidade dificulta tanto o acesso ao lazer quanto às oportunidades de trabalho.
Emprego e qualificação
A dificuldade para conseguir emprego e conciliar trabalho, estudo e vida familiar também aparece entre as prioridades.
Isabelle Rodrigues Trindade, de 26 anos, moradora da Rocinha, defende políticas de geração de emprego e renda. Para ela, a rotina de trabalho e os longos deslocamentos prejudicam principalmente os jovens que buscam estudar e se qualificar.
Outro ponto citado é a necessidade de ampliar cursos técnicos e profissionalizantes. Um morador da zona norte, identificado como João, afirma que muitos projetos de capacitação começam, mas são encerrados antes que os participantes consigam concluir a formação.
Ele também defende mais estrutura para crianças com deficiência e autismo, incluindo creches com profissionais preparados para acompanhar esses alunos.
Ensino superior e cultura
A expansão do acesso ao ensino superior também é uma demanda nas comunidades.
Sara Sant’anna, estudante de História e moradora da zona oeste, defende a criação de polos universitários e centros culturais em regiões afastadas do centro. Para ela, a distância dos equipamentos públicos limita as oportunidades de formação dos moradores.
A jovem também destaca a importância de projetos culturais e educacionais voltados para as periferias.
Saúde e combate ao racismo
Além da educação e do emprego, moradores também cobram políticas de saúde e medidas de combate ao racismo.
Pesquisadores e lideranças comunitárias apontam que desigualdades raciais afetam o acesso a serviços públicos e podem ser percebidas em áreas como atendimento de saúde, habitação e abordagens policiais.
A avaliação é de que políticas públicas precisam considerar as características específicas de cada comunidade, evitando tratar todas as favelas como se tivessem as mesmas necessidades.
Segurança ligada à qualidade de vida
Apesar de não aparecer como prioridade isolada para muitos entrevistados, a segurança continua sendo uma questão presente no cotidiano das comunidades.
Moradores criticam tanto a atuação do crime organizado quanto operações policiais que, segundo eles, acabam afetando escolas, trabalhadores e serviços públicos.
Para lideranças comunitárias, investimentos em educação, esporte, cultura, saúde, urbanização e oportunidades para os jovens podem contribuir para a prevenção da violência.
A professora Eblin Farage, pesquisadora de favelas e espaços populares, afirma que as políticas públicas devem considerar as diferenças entre os territórios. Segundo ela, os moradores possuem demandas próprias e precisam participar da construção das soluções.
A expectativa dos entrevistados para as eleições é que os candidatos apresentem compromissos concretos com as comunidades e mantenham o diálogo depois do período eleitoral. Para eles, melhorar a qualidade de vida nas favelas é parte fundamental da construção de uma política de segurança mais eficiente.
