01/10/2026
O procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, foi preso na noite de 30 de setembro, no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra. Ele era responsável por uma investigação envolvendo o argentino Fernando Cerimedo, operador digital ligado a setores da direita latino-americana.
Além de Mariaca, outras autoridades bolivianas foram detidas durante a operação, entre elas o procurador do departamento de Santa Cruz, Alberto Zeballos. Até a manhã de 1º de outubro, o número de autoridades presas chegava a 14, incluindo o ex-ministro Eduardo Del Castillo. As acusações mencionadas pelas autoridades envolvem tráfico de drogas e organização criminosa.
Mariaca e Zeballos haviam tido os vistos de entrada nos Estados Unidos revogados pela administração de Donald Trump em 28 de setembro. O governo norte-americano os acusou de envolvimento com corrupção ou narcotráfico, sem apresentar publicamente provas dessas acusações.
Após a prisão, uma transmissão nas redes sociais do Ministério Público boliviano afirmou que Mariaca e Zeballos haviam sido detidos sem mandado judicial. Uma funcionária da instituição classificou a ação como ilegal e questionou a ausência de documentos que explicassem as razões das prisões.
Acusações contra Mariaca
O ministro boliviano Marco Antonio Oviedo acusou Mariaca de liderar uma organização criminosa supostamente infiltrada no sistema de Justiça e relacionada ao tráfico de drogas.
Segundo Oviedo, a operação teria desarticulado uma estrutura que utilizava o Ministério Público para proteger e incentivar atividades ligadas ao narcotráfico. O ministro também apresentou imagens de policiais retirando pacotes de dinheiro de um compartimento oculto em um veículo relacionado, segundo ele, à residência de Mariaca.
O governo também relacionou o grupo aos protestos realizados na Bolívia entre maio e junho, que duraram mais de 50 dias e tiveram como uma das reivindicações a saída do presidente Rodrigo Paz.
Mariaca foi eleito pelo Parlamento boliviano em 2024, durante o governo de Luis Arce, para um mandato de seis anos.
Antes da prisão, depois de ter o visto norte-americano cancelado, o então procurador-geral afirmou que a medida poderia estar relacionada às investigações conduzidas pelo Ministério Público, especialmente ao caso envolvendo Cerimedo.
Investigação sobre Cerimedo
Fernando Cerimedo foi preso na Bolívia em agosto e passou a ser investigado por suspeitas de tentativa de feminicídio, tráfico de drogas e enriquecimento ilícito. A defesa nega as acusações e afirma que o argentino é alvo de uma articulação política.
Cerimedo ganhou notoriedade no Brasil em 2022, quando participou de uma transmissão pela internet na qual questionou, sem apresentar provas, a segurança das eleições presidenciais brasileiras.
O argentino também é associado politicamente ao presidente Javier Milei e já atuou para lideranças da direita latino-americana. Em fevereiro de 2026, recebeu um prêmio de consultoria política em evento realizado na residência de Donald Trump, em Mar-a-Lago, na Flórida.
Durante as investigações na Bolívia, as autoridades também encontraram uma estrutura descrita como uma “fazenda de cliques” em um endereço relacionado a Cerimedo. O local teria sido utilizado para movimentar contas automatizadas nas redes sociais.
Relação com os Estados Unidos
As prisões ocorreram poucos dias depois de Washington anunciar restrições de vistos contra autoridades de Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. O governo norte-americano afirmou que as medidas faziam parte de uma política de cooperação com países latino-americanos no combate ao narcotráfico.
O ministro Marco Antonio Oviedo afirmou que a operação foi realizada pelas autoridades bolivianas, mas reconheceu a existência de cooperação internacional, incluindo participação dos Estados Unidos, países europeus e nações vizinhas.
A operação também provocou interpretações distintas entre especialistas. A professora Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), avaliou que as medidas norte-americanas possuem dimensão política e relacionou a retirada dos vistos às investigações conduzidas por Mariaca.
Já o professor Salvador Schavelzon, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirmou não ter elementos suficientes para avaliar a legalidade da operação ou os indícios apresentados contra o procurador. Ele destacou, porém, que acusações relacionadas ao narcotráfico envolvendo instituições bolivianas são recorrentes no país.
A defesa de Cerimedo continua negando as acusações contra o argentino.
