
Brasília 11/09/2026
Uma rede de anúncios enganosos no Telegram utiliza imagens reais de mulheres ucranianas, muitas delas militares ou ex-integrantes das Forças Armadas, para disseminar falsas acusações de violência sexual e direcionar usuários para canais favoráveis à Rússia.
A investigação identificou mais de 6,5 mil publicações com esse tipo de conteúdo. Segundo o levantamento, os anúncios foram distribuídos por aproximadamente 1,7 mil canais de pequeno porte e alcançaram mais de 65 milhões de visualizações.
As publicações seguem um padrão semelhante. Fotografias reais de mulheres são acompanhadas de alegações falsas de que elas teriam sido sequestradas, estupradas ou submetidas a outras formas de violência. Os anúncios prometem vídeos como supostas provas dos abusos, mas o material anunciado não existe.
Em vez disso, os links direcionam os usuários para canais privados do Telegram que divulgam conteúdo favorável à guerra e à narrativa do governo russo.
IMAGENS DE MILITARES SÃO USADAS COMO ISCA
Entre as vítimas está Keti Leshkasheli, médica georgiana que serviu como paramédica militar na Legião Internacional da Ucrânia.
Depois de retornar da linha de frente, ela descobriu que uma fotografia sua, tirada quando estava de uniforme militar em Avdiivka, no leste da Ucrânia, era utilizada em publicações que afirmavam falsamente que ela havia sido capturada e estuprada.
Leshkasheli relatou que familiares e amigos chegaram a procurá-la para saber se estava bem após terem visto as mensagens.
A investigação identificou imagens de mais de 20 mulheres utilizadas nessa campanha. Sete delas foram ouvidas durante o levantamento.
Em alguns casos, além das falsas acusações de violência sexual, as publicações atribuíam às mulheres declarações ou atos que nunca ocorreram, incluindo supostas torturas contra soldados russos e manifestações de apoio à violência contra crianças russas.
ESTRATÉGIA EXPLORA CONTEÚDO CHOCANTE
A utilização de acusações de estupro e outras formas de violência sexual funciona como mecanismo de atração de audiência. O conteúdo é apresentado de maneira deliberadamente chocante para estimular o clique dos usuários.
A pesquisadora Valentyna Shapovalova, que estuda desinformação relacionada a gênero, avalia que a estratégia transforma a promessa de violência sexualizada em uma ferramenta para captar e monetizar a atenção do público.
A campanha também contribui para a disseminação de mensagens que humilham ucranianos e apresentam a violência contra o adversário como algo aceitável.
REDE ENVOLVE MILHARES DE CANAIS
O levantamento identificou uma rede formada por milhares de canais. Pelo menos seis ultrapassaram 1 milhão de inscritos.
Entre os maiores está o Pryamoy Efir Novosti, associado a mais de mil das publicações analisadas. O canal possui mais de 4 milhões de inscritos e se apresenta atualmente como um agregador de notícias favorável à Rússia.
A página, criada no início da invasão russa em larga escala, originalmente utilizava o nome “MVD 18+”, associado a conteúdo adulto.
Segundo a investigação, canais que integram essa rede reproduzem materiais da mídia estatal russa e adotam posições alinhadas ao Kremlin. As publicações apresentam avanços militares russos como “libertações”, atribuem caráter agressivo à União Europeia e ao Reino Unido e celebram perdas ucranianas.
PUBLICAÇÕES TAMBÉM APARECEM EM OUTRAS PLATAFORMAS
A estratégia não se limita ao Telegram. Conteúdos semelhantes foram identificados em plataformas como TikTok, YouTube e VKontakte.
As publicações utilizam diferentes perfis para divulgar a mesma promessa de vídeos envolvendo supostos casos de violência sexual e, posteriormente, conduzir o público aos canais privados do Telegram.
Há ainda indícios de automação na produção e distribuição das mensagens. Algumas contas publicam textos idênticos simultaneamente, inclusive mantendo os mesmos erros de digitação.
MILHARES DE PUBLICAÇÕES FORAM REMOVIDAS
Das mais de 6,5 mil publicações enganosas identificadas na investigação, aproximadamente 5,4 mil foram posteriormente removidas.
Apesar disso, novas contas e anúncios continuam aparecendo.
Mulheres que tiveram suas imagens utilizadas afirmam ter enfrentado dificuldades para retirar o conteúdo das plataformas. Algumas fizeram denúncias diretamente ao Telegram, mas relatam que as medidas tiveram pouco efeito.
Lesia Palahniuk, conselheira regional de Chernivtsi, também teve sua fotografia utilizada em publicações de caráter obsceno. Ela afirmou que esse tipo de exposição impõe às vítimas uma sensação de vergonha que, na realidade, não lhes pertence.
A campanha evidencia como imagens pessoais podem ser utilizadas fora de contexto para produzir desinformação, explorar conteúdo sexualizado e ampliar a circulação de narrativas políticas em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia.
