Dificuldades de transporte já fizeram 39% das mulheres desistirem de oportunidades profissionais

- in Geral

23/09/2026

Quase quatro em cada dez mulheres brasileiras, o equivalente a 39%, afirmam já ter desistido de uma vaga de emprego ou de outra oportunidade profissional por causa de dificuldades para se deslocar. Os principais obstáculos apontados são insegurança, custos, tempo de viagem e distância.

Os dados fazem parte da pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, realizada pela consultoria Indique em parceria com a Think Eva e a 99. O levantamento ouviu 564 mulheres de diferentes idades, faixas de renda e regiões do país.

As dificuldades de mobilidade também afetam compromissos profissionais e a formação. Segundo a pesquisa, 54% das entrevistadas já deixaram de comparecer a uma atividade de trabalho ou recusaram um convite profissional por problemas de deslocamento. Outras 21% desistiram de algum curso ou capacitação, incluindo a faculdade.

Insegurança é o principal obstáculo

A sensação de insegurança aparece como a maior barreira para a mobilidade feminina. Ela foi citada por 32% das participantes, seguida pela falta de dinheiro, com 22%, pela precariedade do transporte público, com 15%, e pela distância dos destinos, com 14%.

O medo também influencia diretamente a forma como as mulheres circulam pelas cidades. Cerca de 87% afirmam evitar determinados bairros ou regiões por questões de segurança, enquanto 73% planejam os horários de seus deslocamentos para reduzir riscos.

Além disso, 63% já deixaram de utilizar algum meio de transporte por segurança e 60% mudaram o caminho até o destino.

O assédio sexual também aparece entre os problemas enfrentados. De acordo com o levantamento, 89% das entrevistadas afirmam já ter passado por alguma situação de assédio em pelo menos um meio de transporte ou durante deslocamentos. Os relatos são mais frequentes em ônibus, deslocamentos a pé, metrôs e trens.

Mobilidade também afeta lazer e vida social

As limitações não se restringem ao trabalho e aos estudos. Oito em cada dez mulheres ouvidas disseram já ter deixado de participar de encontros, eventos ou outras atividades por dificuldades de deslocamento.

Entre as atividades abandonadas estão exercícios físicos e momentos de lazer, citados por 33%, além de visitas a familiares e amigos, mencionadas por 32%. Já 69% afirmaram ter deixado de sair à noite por causa dessas dificuldades.

Os carros por aplicativo são utilizados por 80% das entrevistadas. Entretanto, o custo é apontado como um problema por 67% das mulheres que vivem em periferias ou regiões com deficiências de infraestrutura e transporte.

No conjunto da pesquisa, 68% disseram não possuir veículo próprio e 52% gastam mais de uma hora por dia em deslocamentos. Quase metade, 45%, considera as condições de mobilidade de sua região piores do que as encontradas nas áreas centrais das cidades.

Renda influencia o acesso ao transporte

A pesquisa também identificou diferenças importantes de acordo com a renda. O ônibus é utilizado regularmente por 80,3% das mulheres de baixa renda, enquanto entre as de renda mais alta o percentual é de 52,1%.

O cenário se inverte quando o transporte é o carro próprio: 40,6% das mulheres de maior renda utilizam o veículo regularmente, contra 8,3% entre as mulheres de baixa renda.

Para as pesquisadoras, os dados mostram como as condições financeiras interferem nas possibilidades de deslocamento e, consequentemente, no acesso a trabalho, educação, lazer e outros serviços.

Responsabilidades de cuidado aumentam os deslocamentos

As tarefas relacionadas ao cuidado também influenciam a rotina de mobilidade das mulheres. Segundo o levantamento, 54% das entrevistadas afirmam realizar esse tipo de atividade sozinhas, enquanto 38% dividem as responsabilidades com outras pessoas.

Por isso, os deslocamentos muitas vezes não se resumem ao percurso entre casa e trabalho. Eles incluem paradas para levar filhos à escola, acompanhar familiares em consultas médicas, ir a farmácias e fazer compras.

Entre as mulheres que organizam sozinhas esses trajetos, 44% afirmam escolher o meio de transporte levando em consideração as responsabilidades de cuidado. Quando estão acompanhadas de filhos, idosos ou pessoas com deficiência, 53% recorrem a carros por aplicativo.

Como a pesquisa foi realizada

A coleta de dados ocorreu entre 8 de junho e 9 de julho de 2026. Foram entrevistadas 564 mulheres entre 18 e 60 anos, residentes em dez capitais — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém — e em outras 73 cidades brasileiras.

O estudo também reuniu contribuições de especialistas nas áreas de planejamento urbano, mobilidade feminina, direito à cidade, desigualdade territorial, periferias e mobilidade ativa.