20/09/2026
A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um período de tensão em meio a disputas comerciais, decisões judiciais, medidas diplomáticas e divergências políticas. Um relatório reservado elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apontou risco de influência ou interferência norte-americana nas eleições brasileiras de 2026 e indicou uma possível intensificação da pressão dos Estados Unidos sobre o país.
O documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. As informações foram divulgadas inicialmente pela imprensa e posteriormente confirmadas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Segundo a avaliação da inteligência brasileira, a atuação dos Estados Unidos na América Latina estaria relacionada à busca por ampliar sua influência estratégica na região e reduzir a presença de países considerados concorrentes, como a China. O relatório também cita o aumento de medidas econômicas e políticas que afetam diretamente os interesses brasileiros.
Apesar das divergências, o governo brasileiro procura preservar os canais diplomáticos e comerciais com Washington. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém contatos com Donald Trump e já declarou publicamente que possui uma boa relação pessoal com o presidente norte-americano, embora também tenha criticado medidas adotadas pelo governo dos Estados Unidos.
Tarifas aumentam a tensão comercial
As divergências ganharam força a partir de 2025, quando os Estados Unidos passaram a aplicar tarifas sobre produtos importados de diversos países, incluindo o Brasil.
Posteriormente, as medidas passaram a incorporar argumentos políticos. Em julho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva que classificou o Brasil como uma ameaça à segurança nacional norte-americana e elevou a tarifa sobre determinados produtos brasileiros para 50%.
Entre as justificativas apresentadas pelo governo dos Estados Unidos estavam decisões da Justiça brasileira envolvendo plataformas digitais, incluindo o Rumble e o X, além do processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O governo Trump classificou a condenação de Bolsonaro como perseguição política. No Brasil, entretanto, o processo envolveu acusações relacionadas à tentativa de ruptura da ordem democrática após as eleições presidenciais de 2022.
Sanções contra ministro do STF
Outro episódio de forte impacto diplomático foi a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atua em processos relacionados à tentativa de ruptura institucional.
A medida norte-americana previa restrições financeiras e comerciais nos Estados Unidos, além de limitações relacionadas à entrada no país. Na mesma conjuntura, os Estados Unidos também revogaram vistos de outros ministros do STF.
Em dezembro de 2025, Moraes e sua esposa, Viviane Barci Moraes, deixaram a lista de pessoas atingidas pela Lei Magnitsky.
Atuação de Eduardo Bolsonaro
A crise também envolveu o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O parlamentar passou a viver nos Estados Unidos e declarou apoio às medidas adotadas pelo governo Trump contra autoridades e interesses brasileiros.
Eduardo afirmou ter trabalhado junto a autoridades norte-americanas em defesa das medidas. No Brasil, sua atuação passou a integrar uma investigação relacionada à suposta pressão sobre autoridades durante o processo envolvendo seu pai.
Em junho de 2026, Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF. Ele também perdeu o mandato parlamentar após deixar de comparecer às sessões da Câmara dos Deputados.
Novas tarifas e acusações comerciais
Mesmo depois de decisões judiciais nos Estados Unidos que limitaram parte da política tarifária de Trump, novas sobretaxas foram anunciadas contra produtos brasileiros.
Em julho, Washington anunciou uma tarifa adicional de 25% que atingiu parte das exportações brasileiras. O governo norte-americano justificou a medida citando práticas que considerava desleais na relação comercial entre os dois países.
Entre os pontos mencionados estavam o sistema de pagamentos Pix, a regulamentação das redes sociais, questões ambientais e acordos comerciais brasileiros com outros países.
Pouco depois, os Estados Unidos acrescentaram outra tarifa de 12,5%, relacionada à alegação de que o Brasil não adotaria medidas suficientes contra a entrada de produtos associados ao trabalho forçado.
O governo brasileiro contestou as medidas e classificou as tarifas como arbitrárias e injustificadas. Atualmente, dependendo do produto, parte das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos pode sofrer tributação de até 37,5%.
Divergências sobre organizações criminosas
Outro ponto de atrito ocorreu em maio, quando os Estados Unidos anunciaram a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
O governo brasileiro havia tentado evitar a medida por considerar que ela poderia gerar consequências econômicas, financeiras e diplomáticas. Especialistas também apresentaram diferentes avaliações sobre os possíveis efeitos jurídicos e práticos da classificação.
Crise diplomática envolvendo embaixadora
Em agosto, os Estados Unidos anunciaram a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
A justificativa apresentada pelo governo norte-americano estava relacionada à demora brasileira em conceder a aprovação diplomática para o indicado de Trump à embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
O governo brasileiro rejeitou a justificativa e afirmou que Washington havia divulgado antecipadamente o nome do indicado, contrariando procedimentos previstos na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
Lula e Trump mantêm diálogo
Apesar da sequência de conflitos, Lula e Trump mantiveram contatos presenciais e por telefone desde o primeiro encontro entre os dois, durante a Assembleia Geral da ONU de 2025.
Em outubro daquele ano, os presidentes voltaram a se encontrar durante a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Kuala Lumpur, na Malásia. Nenhum acordo bilateral foi anunciado naquele momento.
O encontro presencial mais recente ocorreu em Washington, em maio de 2026. Lula apresentou argumentos sobre a relação comercial entre os dois países e afirmou que os Estados Unidos mantêm superávit no comércio bilateral com o Brasil. Os dois governos também concordaram em manter negociações entre suas equipes.
Na ocasião, Lula apresentou ainda as medidas brasileiras de combate ao crime organizado, em uma tentativa de impedir a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas.
Brasil e Estados Unidos também anunciaram, em abril, um acordo de cooperação voltado ao combate ao tráfico internacional de armas e drogas.
Além dos encontros presenciais, os presidentes conversaram por telefone pelo menos quatro vezes. A conversa mais recente ocorreu em agosto e durou cerca de 1h20, com foco nas negociações comerciais e em conflitos internacionais.
Novo encontro na ONU
Lula e Trump voltarão a estar no mesmo evento na próxima terça-feira (22), durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Como presidente do Brasil, Lula será responsável pela abertura do Debate Geral. Na sequência, Trump fará o discurso dos Estados Unidos.
Até o momento, não há previsão de uma reunião bilateral entre os dois presidentes durante a agenda da ONU.
