Apostas online podem agravar sofrimento mental e exigem atenção, dizem especialistas

- in Saúde

10/09/2026

Profissionais de saúde mental alertam para os riscos associados ao uso problemático de plataformas de apostas esportivas, especialmente quando o jogo passa a ocupar espaço excessivo na rotina e provoca prejuízos financeiros, familiares e emocionais.

O alerta é reforçado nesta quinta-feira (10), Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Especialistas defendem que o assunto seja abordado de maneira aberta durante consultas e tratamentos, sem tabus.

Entre os sinais que merecem atenção estão desesperança, isolamento, mudanças bruscas de comportamento, aumento do consumo de álcool e falas relacionadas à morte ou à falta de vontade de viver.

Apostas e perda de controle

Segundo profissionais ouvidos pela Agência Brasil, pessoas que desenvolvem dependência em apostas podem procurar atendimento já apresentando ansiedade, depressão e dificuldades decorrentes de perdas financeiras.

A psiquiatra Katia Branco, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pensamentos relacionados ao suicídio precisam ser abordados diretamente nos tratamentos. Para ela, identificar essas manifestações permite avaliar os riscos e buscar estratégias para proteger o paciente.

O problema não está necessariamente em apostar ocasionalmente. A psiquiatra Giovanna Quinet ressalta que a situação se torna preocupante quando a atividade deixa de ser eventual, passa a ocupar uma posição central na vida e ocorre perda de controle.

Ciclo de perdas pode agravar o quadro

As apostas online apresentam uma característica que preocupa os especialistas: estão disponíveis praticamente o tempo todo por meio do celular e são amplamente associadas à publicidade, ao esporte e às redes sociais.

Esse acesso constante pode facilitar a repetição das apostas. Em alguns casos, a pessoa aumenta os valores apostados para tentar recuperar dinheiro perdido e começa a esconder a situação de familiares e amigos.

O processo pode resultar em endividamento, conflitos familiares, problemas profissionais, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento. Esse conjunto de fatores pode contribuir para o agravamento do sofrimento psicológico.

O neurocirurgião Orlando Maia explica que o sistema de recompensa do cérebro também participa do processo de dependência. A expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina e reforçar a repetição do comportamento.

Família e amigos podem ajudar

Um dos desafios apontados pelos especialistas é que a própria pessoa nem sempre reconhece que desenvolveu um problema. Por isso, familiares e amigos podem desempenhar papel importante na identificação dos sinais e na busca por atendimento.

A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, destaca a importância de acolher quem apresenta sofrimento intenso e envolver a família na construção de estratégias de cuidado.

Os profissionais ressaltam ainda que perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não estimula esse tipo de comportamento. Ao contrário, a conversa pode criar uma oportunidade para que a pessoa revele um sofrimento que vinha mantendo em silêncio.

Tratamento deve ser individualizado

O acompanhamento profissional pode envolver diferentes estratégias, incluindo atendimento psicológico, acompanhamento psiquiátrico e, quando necessário, uso de medicamentos. Os especialistas defendem uma abordagem integrada, que também considere aspectos sociais, familiares e hábitos de vida.

A orientação é não esperar que a situação se agrave para procurar ajuda. A dependência em apostas deve ser tratada como uma questão de saúde que pode ultrapassar os prejuízos financeiros.

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável também defende ações coordenadas entre autoridades, empresas, entidades e sociedade para prevenção e proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Onde buscar ajuda

Em situações de risco imediato de suicídio, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de emergência. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Pessoas que precisam de acompanhamento especializado também podem procurar os serviços da Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).